O Islamismo Moderno e o Movimento da Nova Era

31/03/2013 19:39

 

Por: Nancy Pearcey 
Os cristãos por vezes acham fácil pôr de lado o movimento da Nova Era, 
tachando-o de ornamento fútil que sobrou da contracultura dos anos sessenta. Mas 
semelhante atitude seria subavaliação perigosa. O âmago do movimento é uma religião 
panteísta (ver Capítulo 4), derivada de uma tendência religiosa extraordinariamente ampla 
que surge em quase toda época e cultura — no Ocidente, no Oriente e no Oriente Médio 
(islamismo). Em conseqüência do 11 de setembro, quando o mundo concentrou a atenção 
nas culturas islâmicas, os cristãos precisam estar preparados para identificar esta tendência 
religiosa mais ampla a fim de entender os atuais acontecimentos culturais e políticos. 
Começando com o Ocidente, as idéias quase-panteístas de que estamos falando 
criaram raízes no século III com os gregos antigos. Este era um período em que as religiões 
asiáticas eram a moda na antiga cultura grega, muito semelhante ao que ocorreu nos 
Estados Unidos nos anos sessenta. O resultado foi uma escola de pensamento conhecida 
por neoplatonismo, que fundiu a filosofia de Platão com o panteísmo indiano. Neo quer 
dizer “novo”, é claro, pelo que devemos reputá-lo como a forma do mundo antigo do 
movimento da Nova Era. 
O principal porta-voz desta fusão do Oriente e do Ocidente foi Plotino. 
1 Ele 
ensinou que o mundo era uma “emanação” ou radiação do ser, proveniente de um Espírito 
ou Absoluto não-pessoal — algo como a luz é radiação do sol. O nível mais baixo desta 
radiação era a matéria; e por estar no ponto mais distante da Bondade Infinita, isso a 
tornou má. Em outras palavras, ter um corpo físico e material era considerado um tipo de 
pecado, algo negativo do qual devemos ser salvos. Como? Por práticas ascéticas que 
suprimem os desejos físicos. A meta era libertar o espírito da “casa-prisão” do corpo para 
ser reabsorvido pelo Infinito do qual veio. 
Estas idéias têm paralelos óbvios com o panteísmo oriental. Alguns hindus de 
nossos dias reconhecem Plotino como um espírito congênere. Swami Krishnananda 
escreve: “Plotino, o místico célebre, no que tange aos seus pontos de vista, aproxima-se 
muito da filosofia Vedanta, e está praticamente em total acordo com os sábios orientais”. 
2
Outros estudiosos concordam: um livro de ensaios intitulado Neo-Platonism and Indian 
Philosophy (Neoplatonismo e a Filosofia Indiana) observa a “extraordinária semelhança entre 
o sistema filosófico de Plotino (205-270 d.C.) e dos vários filósofos hindus em vários 
séculos”. 
3 Para ambos, Deus não é um ser pessoal, mas uma essência não-pessoal. 
1 O neoplatonismo foi fundado por Amônio Sacas, que reconhecia explicitamente sua dívida com a 
religião da Índia. Plotino foi seu aluno, cuja fascinação pelas idéias do mestre foi tamanha, que 
determinou viajar para a Pérsia e Índia a fim de estudar as filosofias orientais in loco, embora os 
historiadores não estejam certos de até onde ele realmente foi em suas viagens. 
2
Swami Krishnananda, “Plotinus”, em: Studies in Comparative Philosophy, the Divine Life Society, em 
http://www.swami-krishnananda.org/com/com_plot.html. 
3
Paulos Gregorios, editor, Neo-Platonism and Indian Philosophy (Nova York: SUNY Press, 2001). A 
citação foi retirada da contracapa. A fé Bahá’i, que se tornou moda nos anos setenta, também se 
desenvolveu do neoplatonismo. Juan R. Cole ressalta que “a teologia mística de Plotino (203-269/270 2 
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Desde o princípio, o neoplatonismo não só era uma filosofia, mas também uma 
religião mística. Na realidade, foi feito em parte em oposição ao cristianismo — como arma 
a ser brandida pelo paganismo antigo em sua batalha polêmica contra o cristianismo. No 
século IV, o imperador Juliano, o Apóstata, tentou desalojar o cristianismo como a religião 
oficial do Império Romano substituindo-o pelo neoplatonismo. 
É surpreendente que muitos dos cristãos primitivos fossem simpatizantes do 
neoplatonismo e muito influenciados por ele — notavelmente Clemente de Alexandria, 
Orígenes e Agostinho. Ao término do século V, esta filosofia semi-oriental foi sintetizada 
com o cristianismo por um escritor desconhecido chamado Dionísio, o Areopagita, que se 
fez passar por convertido do século I de Paulo. Depois conhecido por pseudo-Dionísio, ele 
apresentou uma forma cristianizada de neoplatonismo que ficou bastante influente na 
Idade Média. Seus escritos foram traduzidos para o latim por João Escoto Erigena em 
meados do século IX, e desde então o neoplatonismo se tornou o principal canal do 
pensamento grego para as eras posteriores. Influenciou grandemente muitos movimentos 
místicos no Ocidente, incluindo os de Meister Eckhart e Jacob Boehme. Era popular entre 
os humanistas do Renascimento, como Ficino e Pico della Mirândola. Até muitos dos 
primeiros cientistas modernos postularam uma filosofia neoplatônica da natureza, que 
inspirou grande parte do seu trabalho científico. 
4
Mais tarde, o neoplatonismo se tornou influência importante no movimento 
romântico do século XIX com seu idealismo filosófico, em que se dizia que a realidade 
suprema era o Espírito, a Mente ou o Absoluto. No historicismo alemão, o Absoluto 
recebeu uma flexão evolutiva; dizia-se que evolui por uma série de estágios dos níveis mais 
baixos do ser a níveis cada vez mais altos. Em princípios do século XX, esta noção foi 
modernizada no processo do pensamento, no qual o próprio Deus se encaixou no 
processo evolutivo — uma deidade imanente e quase-panteísta que evolui com o mundo 
(ver Capítulo 8). Em torno da mesma época, foi lançada uma nova mistura de religião 
oriental e ocultismo ocidental sob o nome filosofia perene — as mesmas idéias que encontrei 
em minha adolescência quando li o livro A Filosofia Perene, de Aldous Huxley (ver Capítulo 
4). 
O que quero dizer com esta pequena pesquisa histórica é que muito antes de os 
Beatles se tornarem discípulos de Maharishi, várias formas de pensamento quase-panteísta 
já eram vertentes proeminentes na tradição cultural ocidental. O movimento da Nova Era 
se tratava meramente de uma expressão mais recente de uma tendência há muito existente 
de importar o panteísmo oriental para a cultura ocidental, que começou com Plotino e o 
neoplatonismo. 
E quanto ao Oriente Médio? Muitos de nós não percebemos que, historicamente, 
os pensadores islâmicos se serviram de fontes gregas antigas de forma tão intensa quanto 
os pensadores ocidentais, de maneira que o neoplatonismo também se espalhou nas 
culturas árabes. 
5
 Durante a Era Dourada do Islamismo nos séculos VII e VIII, os exércitos 
d.C.), fundador do neoplatonismo, influenciou particularmente o contexto cultural das escrituras 
bahaístas. (The Concept of Manifestation in the Bahá’i Writings, publicado originalmente como 
monografia Bahá’i Studies 9 [1982]: pp. 1-38, pela Association for Bahá’i Studies, Ottawa, Ontário; 
também está disponível on-line em http://www.personal.umich.edu/-jrcole/bhmanif.htm). 
4 Em A Alma da Ciência [Ed. Cultura Cristã, 2005], analisei extensamente a influência que o 
neoplatonismo exerceu nos primeiros cientistas modernos. Um tema importante no livro é que, desde a 
revolução científica, as teorias científicas foram moldadas por estas três cosmovisões básicas: a 
aristotélica, a neoplatônica e a mecanicista. Embora a cosmovisão mecanicista se tornasse dominante, até 
hoje as outras duas permanecem como posições minoritárias na ciência. 
5
Para inteirar-se de análises recentes, ver Parviz Morewedge, editor, Neoplatonism and Islamic Thought, 
Studies in Neoplatonism: Ancient and Modern, vol.5 (Nova York: SUNY Press, 1992); AI-Farabi, 3 
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de Maomé devastaram tudo desde a Península Árabe, anexando territórios da Espanha à 
Pérsia. Com esta ação, poderíamos dizer, eles também anexaram as obras de Platão, 
Aristóteles, Plotino e outros pensadores gregos. Por conseguinte, o mundo árabe tinha uma 
rica tradição de comentários sobre os filósofos gregos muito antes que a Europa. Nos 
cursos universitários de história, aprendemos que o Renascimento foi despertado pela 
recuperação dos antigos escritos clássicos. Mas raramente aprendemos que foram os 
filósofos muçulmanos que tinham preservado esses documentos e que os reintroduziram no 
ocidente. 
Em conseqüência disso, o neoplatonismo se tornou forte influência no pensamento 
islâmico. Hoje, os principais filósofos muçulmanos adotam a filosofia perene, com sua 
fusão do panteísmo ocidental e oriental. Na realidade, os primeiros proponentes desta 
filosofia, que eram europeus, acabaram se convertendo ao islamismo! 6 Para completar o 
círculo, a pessoa que lançou a filosofia perene (um francês chamado René Guenon) 
acreditava que havia um âmago comum que unia todos os três: o neoplatonismo, no 
Ocidente, o hinduísmo, no Oriente, e o islamismo, no Oriente Médio. 
Desde o 11 de setembro, ouvimos repetidas vezes que o islamismo é apenas outra 
fé abraâmica, algo não muito diferente do cristianismo. Assim, pode ser surpreendente 
saber que o Deus do islamismo é mais parecido com o Absoluto não-pessoal do 
neoplatonismo e hinduísmo do que com o Deus da Bíblia. 
Porém é verdade. E a razão central é que o islamismo rejeita a Trindade. Sem este 
conceito, não há como advogar a concepção de um Deus inteiramente pessoal. Por que 
não? Porque muitos atributos da personalidade só podem ser expressos numa relação — 
coisas como amor, comunicação, empatia e abnegação. 
A doutrina cristã tradicional sustenta a concepção de um Deus pessoal, porque 
ensina que desde a eternidade estes atributos interpessoais foram expressos entre as três 
Pessoas da Trindade. Um Deus genuinamente pessoal requer "Pessoas" distintas, porque só 
isso torna possível a existência de amor e comunicação dentro da deidade em si. 
O islamismo nega a Trindade, fato que significa que não há meio de incluir estes 
atributos relacionais na concepção que fazem de Deus. (Pelo menos, não até que Ele 
criasse o mundo, mas neste caso Ele seria dependente da criação.) É por isso que é correto 
dizer, como afirmam certos filósofos islâmicos, que o islamismo é parecido com o 
neoplatonismo e o hinduísmo. 
Esta concepção não-pessoal de Deus também explica por que os muçulmanos 
expressam sua fé em rituais quase mecânicos: os fiéis muçulmanos recitam o Alcorão 
repetidamente, em uníssono, palavra por palavra, no original árabe. Eles não oram a Deus 
como um ser pessoal, derramando-lhe o coração como fez Davi, ou debatendo com Ele 
como fez Jó. Como consta num site muçulmano, “entender [o Alcorão] é inferior” à 
recitação e ao ritual. 
7
Isso só faz sentido se Deus não for um ser pessoal. Como explica o 
sociólogo Rodney Stark, as religiões com deuses não-pessoais tendem a realçar a precisão 
Founder of Islamic Neoplatonism: His Life, Works and Influence (Rockport, Massachusetts: Oneworld, 
2002); Ian Richard Netton, Muslim Neoplatonists: An Introduction to the Thought of the Brethren of 
Purity (Ikhwan AI-Safa’) (Nova York: Routledge/Curzon, 2003). Há um resumo excelente feito por Ian 
Richard Netton sob o título “Neoplatonism in Islamic Philosophy”, disponível on-line em 
http://www.muslimphilosophy.com/ip/rep/H003.htm. 
6 Entre os grandes proponentes europeus da filosofia perene que se converteram ao islamismo estão René 
Guenon, Fritjof Schuon e Martin Lings. Hoje, o proponente muçulmano mais bem conhecido da filosofia 
perene é Sayyed Hossien Nasr. 
7
Sachiko Murata e William C. Chittik, “The Koran”, disponível on-line em http:// 
www.quran.org.uk/ieb_quran_chittik.htm. 4 
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no desempenho de rituais e fórmulas sagradas; em contrapartida, as religiões com um Deus 
altamente pessoal se preocupam menos com tais coisas, pois um Ser pessoal responderá a 
uma abordagem pessoal feita por súplica improvisada e oração espontânea. 
8
Em nossos esforços em defender o cristianismo, é possível sermos vencidos pelo 
enorme número de religiões e filosofias apregoadas no cenário público das idéias 
atualmente. A tarefa fica mais fácil quando percebemos que todas podem ser agrupadas em 
duas categorias fundamentais: a característica mais crucial se dá entre sistemas que 
começam com um Deus pessoal e sistemas que começam com uma força ou essência nãopessoal. Tipicamente, usamos o termo não-pessoal para nos referir aos "ismos" seculares, 
como o naturalismo e o materialismo. Mas devemos ter em mente que a mesma categoria 
também abrange as crenças religiosas — aquelas que começam com uma essência espiritual 
não-pessoal. E embora o naturalismo seja a moda entre as pessoas bem instruídas, entre as 
pessoas comuns talvez haja um espiritualismo genérico e vago muito mais difundido. 
Todavia, já estava tão difundido há meio século, que C. S. Lewis disse que é 
freqüente sermos confrontados “não pela falta de religião de nossos interlocutores, mas por 
sua verdadeira religião”. Com estas palavras, ele se referia às formas diluídas de panteísmo. 
As pessoas tendem a gostar da idéia de que Deus não é um ser pessoal, mas “uma grande 
força espiritual que permeia todas as coisas, uma mente comum da qual todos fazemos 
parte, um concentrado de espiritualidade generalizada para o qual todos podemos afluir”. 
Este conceito é tão universal que Lewis o considerou “a propensão natural da mente 
humana”, “a atitude a que a mente humana passa automaticamente quando fica por conta 
própria”, sem a revelação divina. 
9
Se Lewis tiver razão, então o panteísmo sempre vai 
ressurgir como oponente natural do cristianismo. 
Com o decorrer do tempo, é improvável que a secularidade dure. Considerando 
que a humanidade é naturalmente religiosa, no fim a cultura ocidental se espiritualizará de 
novo. Tendo cumprido o propósito de minar o cristianismo, a secularidade se extinguira, 
dando vez a uma espiritualidade panteísta que já está no cerne do pensamento coletivo no 
Ocidente, no Oriente e no Oriente Médio. É crucial os cristãos aprenderem a analisar estas 
cosmovisões não-pessoais e panteístas para se proteger e alcançar, pelo evangelismo, os 
espiritualmente perdidos. 
Fonte: Verdade Absoluta – Libertando o Cristianismo de seu Cativeiro Cultural 
Apêndice 2 
Nancy Pearcey 
Ed. CPAD, 2006. 
8 Rodney Stark, “Why Gods Should Matter in Social Science”, Chronicle of Higher Education 49, nº 39 
(6 de junho de 2003): p. B7; também disponível on-line em 
http://chronicle.com/free/v49/i39/39b00701.htm. O artigo foi adaptado do livro de Rodney Stark, For the 
Glory of God: How Monotheism Led to Reformations, Science, Witch-Hunts, and the End of Slavery
(Princeton, Nova Jersey: Princeton University Press, 2003). 
9 C. S. Lewis, Miracles: A Preliminary Study (1947; nova tiragem, Nova York: Macmillan, 1960), pp. 81, 
82, 83, grifos meus. 
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